Retrato de Fernando Maurício

(breve biografia em verso)
Por: Euclides Cavaco



Numa singela homenagem
Nestes versos dou início
Ao traçado duma imagem
Sobre Fernando Mauríco.

No berço da Mouraria
Na Rua do Capelão
Nasce o homem que trazia
O fado como condão.

Nasceu dia vinte e um
De Novembro, em trinta e três
Como um cidadão comum
Mas cedo ao fado se fez.

Muito cedo revelou
O fado saber cantar
Aos treze anos ganhou
Já um terceiro lugar.

Com glórias de fadista
Desde tão jovem idade
Cantando o fado, conquista
Cedo, os bairros da Cidade.

A Inspecção de Espectáculos
A título excepcional
Sagrou-o sem obstáculos
Cantor profissional.

Cantou no café Latino
Vera Cruz e Marialvas
Como fadista menino
De palmas mereceu salvas.

Dezassete anos de idade
Talvez um pouco confuso
Interrompe a actividade
Até ir p'ró café Luso...

Fez parte da emissão
Ainda experimental
De quando a televisão
Deu entrada em Portugal.

E no terceiro programa
Depois como recompensa
Foi distinguido com fama
Pelo prémio da Imprensa.

Recebe outras distinções
P'lo povo é agraciado
Entre as honrosas menções
Aclamado Rei do Fado...

A Igreja de Santo Estêvão
Foi dos fados que gravou
Entre outros, o de eleição
Que mais célebre ficou.

Fadista da Mouraria
Como foi reconhecido
P'la forma que se exprimia
Deu ao fado mais sentido.

Compôs, escreveu e cantou
O castiço de Lisboa
A Terra que tanto amou
Onde nasceu a canoa...

Em dois mil e um recebe
Em pleno mês de Maio
A medalha que obteve
Das mãos de Jorge Sampaio.

Na sala do Coliseu
Segundo o nosso inquérito
O Presidente lhe deu
Comenda d'Ordem de Mérito.

Teve carreira brilhante
No fado, sem ter igual
Nome do fado, sonante
Que orgulha Portugal.

A doença traiçoeira
Que o afectou afinal
Termina a sua carreira
Num banco do hospital. 

Sem ter vaidade nem luxos
Mas perante os valores seus
No hospital dos Capuchos
Entregou sua alma a Deus.

Este homem que teve orgulho
Ser lídimo Português
Morreu a quinze de Julho
Do ano dois mil e três.

Tracei aqui com agrado
Este retrato propício
Deste nobre Rei do Fado
Que foi Fernando Maurício!..

Euclides Cavaco