O fado das caravelas,
Trazido pelos marinheiros,
Veio rufia junto à proa.
E por ruas e vielas,
Deu os seus passos primeiros,
Pelos bairros de Lisboa.

Logo após entrar na barra,
E mal atracou na doca,
Alguém p'lo fado chama,
Era ansiosa a guitarra,
Que o levou de boca em boca,
P'rò velho bairro de Alfama.

Dali foi p'rà Madragoa,
P'rò Bairro Alto e p'rà Guia
E ao Castelo onde espreitou,
As colinas de Lisboa
E o Bairro da Mouraria,
Onde a Severa o cantou. 

Foi de viela em viela
E por Lisboa inteirinha,
Trilha os becos mais antigos.
Feito gingão tagarela,
Em cada bairro alfacinha,
Conquistou novos amigos.

Já popular e famoso,
Conhece entre a fidalguia,
Mais nobre daquela era,
O Conde de Vimioso,
Que na antiga Mouraria,
Acompanhou a Severa.

Foi até fora de portas,
Cantado pela Cesária,
Mas tinha predilecção,
Ser cantado a horas mortas,
Na taberna da Rosária,
Da Rua do Capelão.

Fez-se alma portuguesa,
É eco da nossa voz,
P'la guitarra acompanhado,
É só nosso com certeza,
O fado habita em nós, 
Ou somos nós feitos fado!... 

Autor: Euclides Cavaco